O valor da burocracia

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Após a mudanças ocorridas pela IN 969, que torna a certificação digital obrigatória, algumas pessoas ainda têm dúvidas se toda essa tecnologia  trará resultados positivos ou negativos. Para matar suas dúvidas, confira o texto de Raul Corrêa da Silva, presidente da Crowe Horwath RCS.

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Nos últimos anos, o Governo Federal lançou mão de diversas medidas que, em um primeiro momento, vieram complicar ainda mais a já tão difícil vida dos empresários brasileiros.

Para citar algumas exigências, Sped fiscal e contábil, nota fiscal eletrônica e convergência com as normas contábeis internacionais. Só isso já bastaria para deixar qualquer empreendedor de cabelo em pé.

Mas antes de se preocupar de forma excessiva com essas regras, é necessário refletir quais são os seus efeitos.

A primeira reação é reclamar e contar prejuízos, haja vista que tudo isso exige softwares especializados, pessoal preparado e muitas mudanças. Ou seja, mais gastos. Mas não é apenas isso.

Reclama-se também do tal big brother, pois o Sped, por exemplo, permite que a Receita Federal tenha acesso a cada passo das empresas. Isso se configura em um grande risco, pois mesmo sendo honesto, podem acontecer erros de cálculo, de digitação ou de lançamento, o que pode fazer o número de autuações aumentar muito.

Cabe uma pergunta para reflexão: será que o Governo faz isso, pura e simplesmente, para retirar o dinheiro dos empresários e poder controlar os gastos e ganhos, evitando a sonegação de impostos? A resposta é não.

É óbvio que evitar o não pagamento de taxas é fator importante em toda essa reestruturação. Mas existe ainda um outro prisma, deixado de lado por muitos empresários e até por analistas. A imposição de novas normas e regras por parte do poder público visa padronizar a administração das empresas. Ou seja, exige-se mais burocracia e mais trabalho, mas se recebe de volta mais profissionalismo.

Não há mais espaço, nem nas pequenas e médias empresas, para quem não se atualizou. As administrações modernas terão que ser, obrigatoriamente, profissionais e informatizadas. O antigo contador deu lugar a um verdadeiro engenheiro fiscal, tributário e contábil. Qualquer erro nessa área pode ser fatal. Não há mais espaço para amadorismo.

Com base em todos esses dados, que agora devem ser mais do que confiáveis, fica muito mais fácil para qualquer empresa elaborar um planejamento estratégico ou um “business plan” realmente capazes de serem executados, muito mais úteis. Acabaram as peças de ficção. As empresas agora precisam ser exatas em todas as informações contábeis, fiscais e tributárias.

Consequentemente haverá uma diminuição de aventureiros e de quebradeira generalizada ao primeiro sinal de crise. Quem quiser realizar o sonho de ter um negócio próprio, terá que investir mais dinheiro, mas terá uma maior segurança também. O empreendedorismo não vai morrer.

Pessoas com boas ideias e com vocação continuarão a prosperar, mas terão que se cercar de profissionais competentes nesta área e estar sempre muito bem atualizados.

E os dados societários? Também passam a ser mais confiáveis. A convergência com as normas internacionais de contabilidade, o IFRS, já está em vigor há algum tempo para as empresas de capital aberto.

Agora chega a vez das pequenas e médias empresas uniformizarem os seus balanços com os do resto do mundo.

Isso é bom para todos, pois vislumbra uma maior confiança de investidores e demais “stakeholders”, o que facilita a busca por parcerias, financiamentos e joint ventures, além de estimular as fusões e aquisições envolvendo empresas de pequeno e médio porte.

É importante ressaltar que tudo isso gera crescimento. Não é demais lembrar que essas empresas são responsáveis por 60% do total de pessoas empregadas no País e por 20% do PIB. A sua importância é imensurável. Tais medidas visam colocá-las em outro patamar, digno da sua importância para a economia brasileira.

Todas essas exigências podem até parecer um exagero, mas o Brasil está sendo observado e imitado por diversos países. Tendo isso em mente, é fundamental estabelecer um padrão para a administração das empresas compatível com as demais nações desenvolvidas.

É um passo importante para nos estabelecermos definitivamente no quadro de países de primeiro mundo.

Fonte: Brasil Econômico  (também no site da Certisign)

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